LAURA POR LAURA


Já que toda biografia é ficcional (obviamente) vamos considerar isso um papo informal, certo? Sou carioca da gema, nascida em 1974, filha única de Ana e Mauro. Passei parte da minha infância fugindo dos milicos neuróticos que perseguiam jovens corajosos e altruístas. Primeiro, Petrópolis; depois, Salvador; em seguida, a Califórnia (onde fomos seguidos por espiões reacionários até mesmo na Disney _o que só soubemos quando os arquivos do DOPS foram reabertos); e, finalmente, Paris. Pronto, ao seis anos de idade eu já era uma criança cosmopolita, com ideais extremamente humanitários, que falava em francês e pensava em português.

Com a anistia, voltamos ao Rio de Janeiro. Ana e Mauro já não dividiam o mesmo teto (sou filha de um casal moderno, além de comunista; com muito orgulho de tudo, diga-se de passagem). Passei o resto da infância e a adolescência fazendo todas as coisas saudáveis do mundo (circo, saxofone, viagens a Búzios, natação, prática de beijos, balé, canto, aula de reforço, horas no telefone) e estudando em colégios que me deram aqueles amigos de sempre e uma noção muito ampla sobre o que é a vida: o extinto Santo André e o Andrews.

Aos 15 anos voltei à França, busca de raízes, desaterro de passado. Fui num programa de intercâmbio e, apesar de mil problemas, me reencontrei – e encontrei também a minha verdadeira paixão (o cinema) quando cruzei o tapete vermelho numa viagem a Cannes. De volta ao Brasil, acabei, no campus da PUC, cursando Jornalismo – que foi uma excelente escola, sem dúvida. Foi nesta mesma época que conheci, nas areias do Posto 9 (Ipanema), Danton (Mello, para quem não sacou ainda). Entre aquela tarde mágica na qual nos conhecemos e o começo do namoro foram apenas oito dias. O casamento durou 12 anos e rendeu duas filhas fantásticas, Luisa (por causa da música do Tom Jobim) e Alice (por causa do livro/filme do Lewis Carroll).

Nesta época de faculdade, eu queria fazer cinema de cara. Mas como, se o cinema, no começo dos anos 90, ainda estava tão cambaleante? Trabalhei como tradutora na Eco-92, estagiei como jornalista no JB, e ajudei a implementar o banco de imagens do Canal Futura. Depois acabei indo aprender a escrever roteiro de cinema na Califórnia (outra busca básica de raízes, haha). O know-how me fez decolar em vôos mais ousados e, de volta ao Brasil, após um tempo na redação do programa Destino Brasil (do Canal Brasil), fiz meu début na dramaturgia televisiva com Turma do Gueto – um projeto, a princípio, revolucionário.

Depois vieram (e estão vindo) as outras estréias: o lançamento do meu primeiro romance, Júlio&Juliano; colaborações em roteiros de cinema até o meu primeiro longa-autoral (O Fio, em captação); e a minha primeira peça de teatro, A Obra. Como qualquer pessoa realmente desenraizada, comecei a trabalhar fora do país. Primeiro, em Angola, onde desenvolvi um projeto com o querido diretor Jeferson De.

E, recentemente, voltei a trabalhar em Los Angeles e a escrever roteiros em inglês. Tudo começou com a adaptação do longa Journey to the end of the night, co-produção da O2, e se estendeu até uma retomada mais séria de trabalho por lá, com direito a manager e idas esporádicas. Neste momento, tenho dois importantes projetos em Hollywood, o Operation Crossfire, encomenda do ator Adrien Brody; e o Chasing Bohemia, onde estou tendo o privilégio de trabalhar com o diretor Stephen Hopkins.

O mais importante disso tudo (a essência) é que eu amo absurdamente o que eu faço e, como é orgânico pra caramba, não posso deixar de dizer que não (apenas) escrevo para viver mas que vivo (não somente, mas com muita intensidade) para escrever. Então é isso. Já que todo escritor é meio maluco, eis aí um portfólio das minhas loucuras! Divirta-se!!!
Laura.